terça-feira, 21 de abril de 2009


A pipoca

A culinária me fascina. De vez em quando eu até me até atrevo a cozinhar. Mas o fato é que sou mais competente com as palavras do que com as panelas.Por isso tenho mais escrito sobre comidas que cozinhado. Dedico-me a algo que poderia ter o nome de "culinária literária". Já escrevi sobre as mais variadas entidades do mundo da cozinha: cebolas, ora-pro-nobis, picadinho de carne com tomate feijão e arroz, bacalhoada, suflês, sopas, churrascos.Cheguei mesmo a dedicar metade de um livro poético-filosófico a uma meditação sobre o filme A Festa de Babette que é uma celebração da comida como ritual de feitiçaria. Sabedor das minhas limitações e competências, nunca escrevi como chef. Escrevi como filósofo, poeta, psicanalista e teólogo — porque a culinária estimula todas essas funções do pensamento.As comidas, para mim, são entidades oníricas.Provocam a minha capacidade de sonhar. Nunca imaginei, entretanto, que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso que aconteceu.A pipoca, milho mirrado, grãos redondos e duros, me pareceu uma simples molecagem, brincadeira deliciosa, sem dimensões metafísicas ou psicanalíticas. Entretanto, dias atrás, conversando com uma paciente, ela mencionou a pipoca. E algo inesperado na minha mente aconteceu. Minhas idéias começaram a estourar como pipoca. Percebi, então, a relação metafórica entre a pipoca e o ato de pensar. Um bom pensamento nasce como uma pipoca que estoura, de forma inesperada e imprevisível.A pipoca se revelou a mim, então, como um extraordinário objeto poético. Poético porque, ao pensar nelas, as pipocas, meu pensamento se pôs a dar estouros e pulos como aqueles das pipocas dentro de uma panela. Lembrei-me do sentido religioso da pipoca. A pipoca tem sentido religioso? Pois tem.Para os cristãos, religiosos são o pão e o vinho, que simbolizam o corpo e o sangue de Cristo, a mistura de vida e alegria (porque vida, só vida, sem alegria, não é vida...). Pão e vinho devem ser bebidos juntos. Vida e alegria devem existir juntas.Lembrei-me, então, de lição que aprendi com a Mãe Stella, sábia poderosa do Candomblé baiano: que a pipoca é a comida sagrada do Candomblé...A pipoca é um milho mirrado, subdesenvolvido.Fosse eu agricultor ignorante, e se no meio dos meus milhos graúdos aparecessem aquelas espigas nanicas, eu ficaria bravo e trataria de me livrar delas. Pois o fato é que, sob o ponto de vista de tamanho, os milhos da pipoca não podem competir com os milhos normais. Não sei como isso aconteceu, mas o fato é que houve alguém que teve a idéia de debulhar as espigas e colocá-las numa panela sobre o fogo, esperando que assim os grãos amolecessem e pudessem ser comidos.Havendo fracassado a experiência com água, tentou a gordura. O que aconteceu, ninguém jamais poderia ter imaginado.Repentinamente os grãos começaram a estourar, saltavam da panela com uma enorme barulheira. Mas o extraordinário era o que acontecia com eles: os grãos duros quebra-dentes se transformavam em flores brancas e macias que até as crianças podiam comer. O estouro das pipocas se transformou, então, de uma simples operação culinária, em uma festa, brincadeira, molecagem, para os risos de todos, especialmente as crianças. É muito divertido ver o estouro das pipocas!E o que é que isso tem a ver com o Candomblé? É que a transformação do milho duro em pipoca macia é símbolo da grande transformação porque devem passar os homens para que eles venham a ser o que devem ser. O milho da pipoca não é o que deve ser. Ele deve ser aquilo que acontece depois do estouro. O milho da pipoca somos nós: duros, quebra-dentes, impróprios para comer, pelo poder do fogo podemos, repentinamente, nos transformar em outra coisa — voltar a ser crianças! Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo.Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre.Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e dureza assombrosa. Só que elas não percebem. Acham que o seu jeito de ser é o melhor jeito de ser.Mas, de repente, vem o fogo. O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos. Dor. Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, ficar doente, perder um emprego, ficar pobre. Pode ser fogo de dentro. Pânico, medo, ansiedade, depressão — sofrimentos cujas causas ignoramos.Há sempre o recurso aos remédios. Apagar o fogo. Sem fogo o sofrimento diminui. E com isso a possibilidade da grande transformação.Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro ficando cada vez mais quente, pense que sua hora chegou: vai morrer. De dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar destino diferente. Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada. A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo, a grande transformação acontece: PUF!! — e ela aparece como outra coisa, completamente diferente, que ela mesma nunca havia sonhado. É a lagarta rastejante e feia que surge do casulo como borboleta voante.Na simbologia cristã o milagre do milho de pipoca está representado pela morte e ressurreição de Cristo: a ressurreição é o estouro do milho de pipoca. É preciso deixar de ser de um jeito para ser de outro."Morre e transforma-te!" — dizia Goethe.Em Minas, todo mundo sabe o que é piruá. Falando sobre os piruás com os paulistas, descobri que eles ignoram o que seja. Alguns, inclusive, acharam que era gozação minha, que piruá é palavra inexistente. Cheguei a ser forçado a me valer do Aurélio para confirmar o meu conhecimento da língua. Piruá é o milho de pipoca que se recusa a estourar.Meu amigo William, extraordinário professor pesquisador da Unicamp, especializou-se em milhos, e desvendou cientificamente o assombro do estouro da pipoca. Com certeza ele tem uma explicação científica para os piruás. Mas, no mundo da poesia, as explicações científicas não valem.Por exemplo: em Minas "piruá" é o nome que se dá às mulheres que não conseguiram casar. Minha prima, passada dos quarenta, lamentava: "Fiquei piruá!" Mas acho que o poder metafórico dos piruás é maior.Piruás são aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem.Ignoram o dito de Jesus: "Quem preservar a sua vida perdê-la-á".A sua presunção e o seu medo são a dura casca do milho que não estoura. O destino delas é triste. Vão ficar duras a vida inteira. Não vão se transformar na flor branca macia. Não vão dar alegria para ninguém. Terminado o estouro alegre da pipoca, no fundo a panela ficam os piruás que não servem para nada. Seu destino é o lixo.Quanto às pipocas que estouraram, são adultos que voltaram a ser crianças e que sabem que a vida é uma grande brincadeira..."Nunca imaginei que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso que aconteceu".
(Rubem Alves )

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Café Literário

Dia 02 de dezembro,19 hs,teatro do cuca,entrada franca!

Leituras DramáticasSEM ANA,BLUES,texto de Caio Fernando Abreu.SEXO NA CABEÇA,texto de Luís Fernando Verissímo,adaptação Celly Rodrigues.POETAS EM CENA,poesias de Rilke,Borges e Pessoa.Performaces-Mundo Negro (Grupo Cultural Afoxé Pomba de Malê)Sete pecados Capitais (Concepção e execuçaõ Ezequiel França)Programação extra-Exposição impressões.Performace musical com o grupo Velha roupa colorida.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

O vocalista do Guns N' Roses, Axl Rose, está processando a marca de refrigerantes Dr. Pepper, que prometeu dar uma lata de refrigerante para cada norte-americano caso a banda lançasse o álbum "Chinese Democracy" ainda este ano.
Quando o CD finalmente foi lançado nos Estados Unidos, no dia 23 de novembro, a Dr. Pepper deu 24 horas para que os interessados em receber sua parte da promessa fizessem um cadastro. A procura foi tanta que o site não aguentou o número de acessos e ficou fora do ar por um dia inteiro, obrigando a marca a estender o prazo.
Mesmo assim, ele não foi suficiente para fazer com que todos os americanos conseguissem sua lata de refrigerante, como prometia a promoção.
Por isso, o advogado da banda, Alan Gutman, mandou uma carta aberta ao presidente da Dr. Pepper, Larry Young, dizendo que a empresa havia fraudado os consumidores e arruinado o dia do lançamento do "Chinese Democracy".
A banda ainda exigiu que a marca de refrigerantes peça desculpas públicas aos jornais de maior circulação dos Estados Unidos: The New York Times, Los Angeles Times, USA Today e The Wall Street Journal. Depois da confusão, a Dr. Pepper pretende estender mais uma vez o prazo de cadastro.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

(...)-Mas não seria natural.
-Natural é as pessoas se encontrarem e se perderem.
-Natural é encontrar. Natural é perder.
-Linhas paralelas se encontram no infinito.
-O infinito não acaba. O infinito é nunca.
-Ou sempre.

(Caio Fernando Abreu )

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

quarta-feira, 12 de novembro de 2008


O conheci de perto , e se já tinha auma certa adoração por ele... esta se multiplicou , por sua sensibilidade, simplicidade, simpatia!!!!Foi uma noite especial...perfeita!!!!
E a música dele ?Me transporta daqui pra algum lugar que eu ainda não sei... Só sei que é muito bom!
"Um móbile no furacão!"
Saúde e sucesso a ele!!!!

Sobre Moska

Paulinho Moska (Rio de Janeiro, 27 de Agosto de 1967) é cantor e compositor brasileiro. Começou a tocar violão aos 13 anos. Formado em teatro e cinema pela CAL (Casa de Artes de Laranjeiras - RJ). Integrou o o grupo vocal Garganta Profunda. Em 1987 formou o grupo Inimigos do Rei. À época de grupos como Pearl Jam, Nirvana e Lenny Kravitz, Moska lança seu primeiro CD, em 1993, intitulado "Vontade". Em 1995 lançou "Pensar é Fazer Música", com letras baseadas em seu aprofundamento em filosofia. Em 1997, é lançado o álbum "Contrasenso". Viria depois o ao vivo "Através do Espelho", gravado em uma série de apresentações no Teatro Rival RJ. Em 1999 lança "Móbile", experimentando nova sonoridade com interferências eletrônicas. O álbum "Eu falso da minha vida o que eu quiser" continuaria a estética de "Móbile", e propiciou em sua turnê 2500 fotos em metais de banheiros, que resultou em "Tudo Novo de Novo" dois anos depois. "Acabei compondo muitas canções inspiradas pelas fotos, o que me obrigou a colocá-las no encarte"

Sobre o amor (Vênus)

Não falo do amor romântico,aquelas paixões meladas de tristeza e sofrimento relações de dependência e submissão;paixões tristes.Algumas pessoas confundem isso com amor.E chamam de amor esse querer escravo.
Penso que o amor é alguma coisa que pode ser alguma coisa definida ,explicada, entendida, julgada.Penso que o amor já estava pronto, voluntário,inteiro,.antes de ser experimentado.Mas, é exatamente o oposto para mim que o amor se manifesta.A virtude do amor ,é sua capacidade potencial de ser construído, inventado, modificado, o amor está em movimento eterno em velocidade infinita.O amor é um móbile.
Como fotografá-lo?Como percebê-lo?Como se deixar ser?E como impedir que a imagem sedentária incansada do amor não nos domine?
Minha resposta?O amor é o desconhecido.Mesmo depois de uma vida inteira de amores, o amor será sempre desconhecido.A força luminosa que ao mesmo tempo cega e nos dá uma nova visão.A imagem que eu tenho do amor, é de um ser em mutação.O amor quer ser interferido, quer ser violado, quer ser transformado a cada instante.A vida do amor depende dessa interferência.
A morte do amor é quando diante do seu labirinto,decidimos caminhar pela estrada reta,ele nos oferece seus oceanos de mares revoltos e profundos e nós preferimos um leito de um rio com início, meio e fim.
Não!Não podemos subestimar o amor,não podemos castrá-lo .O amor não é orgânico,não é meu coração que sente o amor ,é minha alma que saboreia não é meu sangue que ele ferve!O amor faz sua fogueira dionizíaca no meu espírito.Sua força se mistura com a minha e nossas pequenas fagulhas voam pelo céu como se fosse novas estrelas recém-nascidas.
O amor brilha;como uma aurora colorida e misteriosa como um crepúsculo inundado de beleza e despedida.O amor grita !Seu silêncio nos dá sua música.Nós dançamos sua felicidade em delírio porque somos o alimento preferido do amor.Se tivemos também devorá-lo.
O amor eu não conheço.É exatamente por isso.Que o desejo e me jogo ao seu abismo,me aventurando ao seu encontro.A vida só existe quando o amor a navega,Morrer de amor é a substância de que a vida é feita.Ou melhor, só se vive no amor.E a língua do amor é a língua que eu falo e escuto.
(Moska)

Sobre o amor (Vênus)

Não falo do amor romântico,aquelas paixões meladas de tristeza e sofrimento relações de dependência e submissão;paixões tristes.Algumas pessoas confundem isso com amor.E chamam de amor esse querer escravo.
Penso que o amor é alguma coisa que pode ser alguma coisa definida ,explicada, entendida, julgada.Penso que o amor já estava pronto, voluntário,inteiro,.antes de ser experimentado.Mas, é exatamente o oposto para mim que o amor se manifesta.A virtude do amor ,é sua capacidade potencial de ser construído, inventado, modificado, o amor está em movimento eterno em velocidade infinita.O amor é um móbile.
Como fotografá-lo?Como percebê-lo?Como se deixar ser?E como impedir que a imagem sedentária incansada do amor não nos domine?
Minha resposta?O amor é o desconhecido.Mesmo depois de uma vida inteira de amores, o amor será sempre desconhecido.A força luminosa que ao mesmo tempo cega e nos dá uma nova visão.A imagem que eu tenho do amor, é de um ser em mutação.O amor quer ser interferido, quer ser violado, quer ser transformado a cada instante.A vida do amor depende dessa interferência.
A morte do amor é quando diante do seu labirinto,decidimos caminhar pela estrada reta,ele nos oferece seus oceanos de mares revoltos e profundos e nós preferimos um leito de um rio com início, meio e fim.
Não!Não podemos subestimar o amor,não podemos castrá-lo .O amor não é orgânico,não é meu coração que sente o amor ,é minha alma que saboreia não é meu sangue que ele ferve!O amor faz sua fogueira dionizíaca no meu espírito.Sua força se mistura com a minha e nossas pequenas fagulhas voam pelo céu como se fosse novas estrelas recém-nascidas.
O amor brilha;como uma aurora colorida e misteriosa como um crepúsculo inundado de beleza e despedida.O amor grita !Seu silêncio nos dá sua música.Nós dançamos sua felicidade em delírio porque somos o alimento preferido do amor.Se tivemos também devorá-lo.
O amor eu não conheço.É exatamente por isso.Que o desejo e me jogo ao seu abismo,me aventurando ao seu encontro.A vida só existe quando o amor a navega,Morrer de amor é a substância de que a vida é feita.Ou melhor, só se vive no amor.E a língua do amor é a língua que eu falo e escuto.
(Moska)

terça-feira, 11 de novembro de 2008

EVENTO:


CAZUZA :Trecho do filme "o Tempo não pára"

"Cantando agente inventa.Inventa um romance ,uma saudade,uma mentira.Cantando agente faz história.Foi gritando que aprendi a cantar!Sem pudor,sem pecados.Canto para espantar os demônios,pra juntar amigos,pra sentir o mundo,pra sedizeir a vida"

"É o que pulsa o meu sangue quente
É o que faz meu animal ser gente
É o meu compasso mais civilizado e controlado"
(No compasso-Ângela Rorô)

Poesia:

"Tudo quanto penso,
Tudo quanto sou
É um deserto imenso
Onde nem eu estou"

Fernando Pessoa

.

"Dentro de nós há uma coisa que não tem nome,essa coisa é o que somos"(Saramago).

-Se delicie , com as palavras de Rubem Alves


Cartas de amor

Leio e releio o poema de Álvaro Campos.Oscilo.Não se devo acreditar ou duvidar.Se acredito,duvido.Duvido porque acredito.Pois,foi ele mesmo quem disse ,ou melhor o seu outro Fernando Pessoa que ele era u fingidor.”Todas as cartas de Amor são ridículas.Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas...”
Tenho no meu escritório, a reprodução de uma das telas mais delicadas que conheço.”A mulher que lê” de Jonathas Verner.Uma mulher de pé, lê uma carta.O seu rosto está iluminado pela luz da janela.Seus olhos lêem o que está escrito naquela folha de papel que suas mãos seguram,a boca ligeiramente entreaberta, quase num sorriso.De absorda,ela nem dá conta da cadeira, ao seu lado.Lê de pé.Penso ser capaz de reconstruir os momentos que antecedem esta que o pintor fixou.Pancadas na porta interrompem as rotinas domésticas que a ocupavam.Ela vai abrir e lá estava o carteiro, com uma carta na mão.Pela simples leitura de seu nome no envelope, ele identifica o remetente.Ela toma a carta e , comeste gesto,toca uma mão muito distante.Para isso que servem as cartas de amor.não para dar notícias, não para contar nada,não para repetir as coisas demais sabidas, masque as duas mãos separadas se toquem, ao se tocarem a mesma folha de papel.(...)
Volto a Álvaro Campos.Será esta então a razão dos ridículos da carta de amor?O descompasso entre o que elas dizem e aquilo que elas realmente desejam realizar está sempre antes e depois da palavra escrita:Ela quer realizar aquilo que a separação proíbe : O abraço!.Quem quer que tente entender uma carta de amor pela análise da escritura estará sempre fora do lugar,pois o que ela é o que não está ali,o que está ausente. Qualquer carta de amor , não importa o que encontre nela escrito,só fala do desejo a dor da ausência , a nostalgia pelo reencontro.
Aquela carta fez tudo parar.A mulher fecha a porta e caminha pela casa sem nada ver, buscando uma coisa , uma luz apenas , o lugar onde as palavras ficarão luminosas.Que lhe importa a cadeira?Esqueceu-se de que está grávida.Seus olhos caminham pelas palavras que saíram das mesmas mãos que abraçavam.Seu corpo está suspenso naquele momento mágico de carinho impossível que aquele pequeno pedaço de papel abriu no tempo do seu cotidiano.
Uma carta de amor é um papel que liga duas solidões.A mulher está só.Se há outras pessoas na casa , ela os deixou .Bem pode ser que as coisas que estão nela escrita não sejam nenhum segredo,que possam ser contadas á todos.Mas, para que as cartas sejam de amor ela têm que ser lida em solidão.Como se o amante estivesse dizendo:”Escrevo para que você fique sozinha...”È este ato de leitura solitária que estabelece a cumplicidade. Pois, foi da solidão, que a carta nasceu.A carta de amor é objeto que o amante fez para tornar suportável seu abandono.
“Ainda bem que telefone existe”retrucarão os namorados modernos, que não têm de viver amor no espaço da ausências.Engano.Um telefona,não é uma carta falada.Pois lhe falta o essencial:O silêncio da solidão, a calma da caneta pousada sobre a mesa que espera e escolhe pensamentos e palavras.O telefone põe a solidão a perder.Num telefonema a gente nunca diz aquilo que se diria numa carta.Por exemplo:”Eu ia andando pela rua ,quando de repente , vi um ipê rosa florido que me fez lembrar aquela vez...”ou “Relendo os poemas de Neruda encontrei este que imagino, você gostará de ler...”
A diferença entre a carta de amor e o telefone é impositivo .A conversa têm de acontecer naquele momento.Falta-lhe o ingrediente essencial da palavra que é dita sem esperar resposta.E ,uma vez terminada, os dois amantes estão de mãos vazias.
A carta é paciente.Guarda as palavras.E depois de lida ,poderia ser relida, ou simplesmente acariciada.Uma carta contra o rosto poderá haver coisa mais terna .Uma carta de amor é mais que uma mensagem.Mesmo antes lida , ainda dentro do envelope fechado ,têm a qualidade de um sacramente:presença sensível de uma felicidade invisível(...)
Foi então que o quadro de Verneer me fez a cena que as cartas escondem .E a mulher com uma carta na mão e uma criança na barriga?Ela bem que poderia ser Mileva , grávida de uma filha ilegítima , que foi dada para a doação , e sobre quem nada sabe .A criança foi dada .Mas, as cartas foram guardadas.E as razões poderiam ter uma pessoa para guardar cartas ridículas ?O seu rosto absordo e os lábios entreabertos nos dão a resposta para aqueles que amam as ridículas cartas de amor são sempre sublimes.
Volto ao poema de Àlvaro Campos.
Afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor.
São ridículas.

(Alves,Rubem.O Retorno e o Terno.Campinas.SP 24 ED.2003)


" O sertão o senhor sabe,

Manda quem é mais forte.

Deus mesmo se vier,

Que venha armado"

(João Guimarães Rosa)

domingo, 9 de novembro de 2008

IX Bienal do Recôncavo (Brasil)

IX Bienal do Recôncavo (Brasil)8 de novembro de 2008 a 8 de fevereiro de 2009.

Selecionados
A comissão organizadora da Bienal do Recôncavo divulgou, na última quinta-feira, a lista dos selecionados para a IX edição do evento que acontecerá de 8 de novembro de 2008 a 8 de fevereiro de 2009. O jurí de admissão, formado por Juarez Paraíso, Flávio Lopes e Ayrson Heráclito, elegeu 258 obras das 1379 inscritas nas várias modalidades da Bienal. Entre os finalistas, encontram-se os monitores do Labfoto Jônathas Araújo, com o trabalho Estruturas Urbanas, e Fabíola Freire, com uma imagem da série Foto-Scanner. Para José Mamede, coordenador do Labfoto, a classificação dos monitores demonstra “o talento e a boa qualidade do material fotográfico produzido por eles”.
Criada no início dos anos 90, a Bienal do Recôncavo é um dos principais eventos artísticos da Bahia, contando com a participação de concorrentes nacionais e estrangeiros.

SE TUDO PODE ACONTECER...

"Se tudo pode acontecer
se pode acontecer qualquer coisa
um deserto florescer
uma nuvem cheia não chover
pode alguém aparecer
e acontecer de ser você
um cometa vir ao chão
um relâmpago na escuridão
e a gente caminhando de
mão dada de qualquer maneira
eu quero que esse momento
dure a vida inteira
e além da vida ainda
de manhã no outro dia
se for eu e você
se assim acontecer
se tudo pode acontecer..."

(ARNALDO ANTUNES)